Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência — 04

As Estrelas Curiosas

Ilustração — As Estrelas Curiosas

Todas as noites, quando a cidade começava a se recolher e as últimas luzes se apagavam nas janelas, as estrelas despertavam.

Lá do alto, curiosas como crianças diante de um mundo desconhecido, inclinavam-se sobre a imensidão para observar a vida dos homens.

Uma queria saber por que aquela senhora regava suas plantas todas as manhãs, mesmo quando o céu prometia chuva.

Outra se perguntava por que um menino, sentado à janela, conversava tão demoradamente com a Lua.

Havia, porém, uma estrela pequenina, quase escondida entre as outras, que carregava a maior de todas as curiosidades.

Ela não entendia por que os seres humanos choravam tanto.

— Talvez seja porque eles se esqueçam de olhar para cima — disse certa noite uma estrela muito antiga, que já havia assistido a milhares de despedidas e incontáveis amanheceres.

A pequena estrela ficou pensativa.

Como alguém poderia esquecer o céu?

Desde então, noite após noite, ela passou a procurar quem ainda levantasse os olhos para a imensidão.

Quando encontrava alguém, brilhava um pouco mais.

Às vezes era um apaixonado contemplando a distância e pensando em alguém que não estava ali.

Outras vezes, uma criança inventando desenhos entre as constelações.

E havia também aqueles que, cansados de carregar o peso dos dias, saíam para a varanda em silêncio, apenas para respirar e lembrar que existia algo maior do que suas preocupações.

Era para esses que a pequena estrela reservava seu brilho mais bonito.

Numa certa noite, ela viu uma mulher sentada sozinha em uma varanda.

A mulher tinha os olhos voltados para o céu, mas parecia enxergar muito além dele.

Havia em seu rosto uma saudade tão profunda que nem o vento conseguia levar.

A pequena estrela observou-a por um longo tempo.

Depois, brilhou.

Brilhou com toda a delicadeza que uma estrela pode oferecer a alguém que sofre.

A mulher, como se tivesse percebido aquele chamado silencioso, ergueu os olhos.

Procurou entre tantas luzes e, por um breve instante, encontrou a pequena estrela.

Então sorriu.

Foi apenas um sorriso. Pequeno, quase tímido.

Mas, lá no alto, a estrela sentiu que algo havia mudado dentro dela.

Naquele instante, compreendeu que talvez não fosse necessário entender todos os mistérios dos homens.

Talvez não precisasse saber por que choravam, por que partiam, por que guardavam saudades e, mesmo depois de tantas dores, ainda insistiam em recomeçar.

Talvez bastasse estar ali.

Iluminando.

Mesmo de longe.

Desde aquela noite, as estrelas continuam curiosas.

Observam os encontros que acontecem por acaso, as despedidas que ninguém deseja, os sonhos que nascem escondidos e as lágrimas que caem quando o mundo inteiro parece dormir.

Talvez saibam mais sobre nós do que imaginamos.

Talvez, quando piscam no céu, estejam fazendo perguntas umas às outras sobre nossas estranhas maneiras de amar, perder, esperar e sobreviver.

E talvez a menor de todas ainda procure, noite após noite, alguém disposto a erguer os olhos.

Porque as estrelas, apesar de tão distantes, também gostam de ser vistas.

E dizem que, quando alguém olha para o céu com o coração cansado e encontra uma estrela brilhando mais forte do que as outras, é porque aquela pequena estrela curiosa finalmente encontrou mais uma pessoa.

Ela não pode tocar suas lágrimas.

Não pode impedir as despedidas.

Não pode trazer de volta quem partiu.

Mas pode lembrar, em silêncio, aquilo que a dor quase sempre faz esquecer:

nenhuma noite, por mais longa e escura que pareça, é capaz de apagar todas as estrelas.

E talvez seja esse o segredo que a pequena estrela levou tanto tempo para descobrir:

há pessoas que sobrevivem porque alguém as abraça.

Outras, porque alguém as ama.

E algumas sobrevivem simplesmente porque, numa noite qualquer, quando tudo dentro delas parecia escuro, levantaram os olhos... e encontraram uma luz.

E, naquele instante, entenderam:

enquanto ainda houver uma estrela no céu, nunca será tarde demais para recomeçar.