Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência — 11

O nome que ninguém diz

Ilustração — O nome que ninguém diz

Há palavras que parecem grandes demais para caber na boca.

A gente conhece o significado, sabe exatamente o que querem dizer, mas prefere deixá-las escondidas em algum canto do pensamento.

Uma delas é morte.

Quase ninguém gosta de pronunciá-la.

Talvez porque, quando dizemos seu nome, somos obrigados a lembrar que também somos passageiros.

Certa vez, uma notícia chegou antes do café da manhã.

Foi apenas uma frase.

Poucas palavras.

Mas bastaram para transformar uma manhã comum em um daqueles momentos que dividem a vida entre o antes e o depois.

A casa continuou no mesmo lugar.

Os móveis permaneceram onde estavam.

O relógio continuou marcando as horas.

Lá fora, as pessoas seguiam seus caminhos.

Mas alguma coisa havia mudado para sempre.

É estranho perceber que o mundo não para quando alguém morre.

O sol continua nascendo.

Os ônibus continuam passando.

As lojas abrem.

As pessoas conversam.

Alguém ri em algum lugar.

E, enquanto tudo parece seguir normalmente, dentro de quem perdeu alguém existe uma espécie de silêncio que ninguém consegue ouvir.

A ausência ocupa espaço.

Uma cadeira vazia passa a ter uma história.

Uma fotografia ganha outro significado.

Uma música pode trazer alguém de volta por alguns segundos.

E determinadas lembranças deixam de ser apenas lembranças.

Tornam-se encontros com aquilo que já não podemos tocar.

Talvez seja essa uma das maiores dores da morte:

ela não leva somente uma pessoa.

Ela leva possibilidades.

A possibilidade de uma conversa.

De um abraço.

De uma reconciliação.

De uma visita que ficou para depois.

De uma palavra que não foi dita.

E é justamente aí que começamos a compreender o quanto confiamos no amanhã.

Vivemos dizendo:

“Depois eu faço.”

“Depois eu telefono.”

“Depois conversamos.”

“Depois eu vou.”

Como se o futuro tivesse obrigação de nos esperar.

Mas o tempo não faz promessas.

Ele apenas passa.

E não existe aviso para a última vez.

A última conversa pode parecer absolutamente comum.

A última despedida pode acontecer sem lágrimas.

O último abraço pode acontecer sem que ninguém perceba sua importância.

É por isso que algumas ausências doem tanto.

Porque não sabemos quando estamos vivendo o último capítulo de alguma história.

Talvez devêssemos prestar mais atenção às pessoas enquanto elas ainda estão presentes.

Olhar um pouco mais.

Escutar sem pressa.

Abraçar sem motivo.

Dizer o que sentimos.

Não guardar carinho como se fosse algo que pudesse ser utilizado somente em ocasiões especiais.

A vida não deveria precisar de uma perda para nos ensinar o valor de uma presença.

Mas, muitas vezes, é exatamente assim que aprendemos.

Quando alguém parte, descobrimos que aquilo que parecia simples era, na verdade, precioso.

Uma conversa na cozinha.

Um almoço sem importância.

Uma mensagem curta.

Uma risada no meio da tarde.

A voz chamando pelo nosso nome.

Pequenas coisas que jamais imaginamos que um dia poderiam fazer tanta falta.

Talvez a morte tenha esse estranho poder:

ela retira o excesso e nos devolve ao essencial.

Depois de uma perda, pouco importa quem tinha razão.

Pouco importa quem venceu a discussão.

Pouco importa o orgulho.

Ficam as perguntas.

Fica aquilo que poderia ter sido diferente.

Ficam as palavras que não encontramos coragem para dizer.

E talvez seja por isso que algumas pessoas passam a enxergar a vida com outros olhos depois de uma despedida.

Percebem que não vale a pena transformar todos os sentimentos em batalha.

Que há discussões que não merecem nossa paz.

Que existem pessoas que deveriam ser procuradas antes que o silêncio se torne definitivo.

Que pedir perdão não diminui ninguém.

Que amar não é sinal de fraqueza.

E que algumas coisas precisam ser vividas enquanto ainda existe tempo.

Não sei o que acontece depois da morte.

Ninguém pode afirmar com absoluta certeza aquilo que existe além da última fronteira.

Cada um encontra suas próprias crenças, seus próprios consolos e suas próprias respostas.

Talvez exista continuidade.

Talvez exista reencontro.

Talvez exista apenas um mistério que ainda não somos capazes de compreender.

Mas sei que existe algo antes dela.

Existe o presente.

Existe a oportunidade de fazer diferente.

Existe a possibilidade de amar melhor.

De abandonar velhos ressentimentos.

De procurar quem sentimos falta.

De mudar de caminho.

De realizar um sonho que ficou esperando.

De viver com mais verdade.

Talvez o medo da morte não seja apenas medo do fim.

Talvez seja medo de perceber que não aproveitamos suficientemente o começo, o meio e todos os instantes que tivemos.

Porque existe uma forma de desaparecer enquanto ainda estamos respirando:

deixar de desejar,

deixar de sentir,

deixar de tentar,

deixar de acreditar que a vida pode surpreender novamente.

Por isso, hoje, quando penso naquela palavra que tantas pessoas evitam, tento escutá-la de outra maneira.

Não como uma ameaça.

Mas como um lembrete.

A morte diz, em silêncio, que nada é permanente.

E justamente por isso, cada encontro merece atenção.

Cada abraço merece presença.

Cada dia merece ser vivido.

Talvez nunca descubramos quando será nossa última manhã.

Então que não precisemos esperar por ela para perceber a beleza da manhã de hoje.

Que não seja necessário perder alguém para dizer que amamos.

Que não seja preciso sentir falta para reconhecer o valor de quem está perto.

Que não deixemos para amanhã aquilo que o coração já sabe que precisa ser dito.

A morte continuará sendo o nome que hesitamos em pronunciar.

Mas talvez, se tivermos coragem de ouvi-lo sem fugir, ele nos ensine uma das maiores verdades da existência:

não podemos escolher quanto tempo teremos, mas podemos escolher o significado que damos ao tempo que recebemos.

E talvez viver seja exatamente isso:

estar inteiro enquanto ainda estamos aqui.