Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência · 13

É Melhor Ser Injusto para Ser Mais Justo?

Ilustração — É Melhor Ser Injusto para Ser Mais Justo?

Há pensamentos que parecem contraditórios, mas que a vida insiste em colocar diante de nós:

será que, em determinadas circunstâncias, é preciso agir de maneira injusta para alcançar algo mais justo?

À primeira vista, a ideia parece absurda.

Se uma atitude é injusta, como poderia servir para produzir justiça?

Entretanto, a realidade nem sempre oferece escolhas perfeitas. Existem situações em que qualquer decisão pode causar algum tipo de prejuízo. Há momentos em que defender alguém significa contrariar uma regra. Existem circunstâncias em que seguir uma norma ao pé da letra pode provocar um dano maior do que desobedecê-la.

E é justamente nessas situações que a consciência é colocada à prova.

Imagine alguém diante de uma situação limite. Essa pessoa conhece a regra, sabe que deve cumpri-la, mas também percebe que obedecer poderá provocar uma consequência muito mais grave.

Se desobedecer, estará infringindo uma norma.

Se obedecer, talvez precise conviver com o peso de não ter impedido um sofrimento.

Qual seria, então, a decisão mais correta?

Nem sempre existe uma resposta capaz de deixar a consciência completamente tranquila.

É nesses momentos que percebemos que justiça não significa apenas cumprir determinações. Ela também exige discernimento, responsabilidade e capacidade de avaliar cada circunstância.

Uma regra pode ser necessária para manter a ordem, mas nenhuma regra consegue prever todas as situações possíveis da vida humana.

O perigo começa quando confundimos discernimento com permissão para fazer aquilo que desejamos.

Quando somos feridos, é muito fácil acreditar que estamos apenas buscando justiça.

Se alguém nos causa sofrimento, podemos considerar legítimo fazê-lo sofrer também.

Se alguém nos decepciona, podemos interpretar nossa reação como uma consequência merecida.

Se alguém nos prejudica, podemos sentir que devolver a mesma dor é apenas uma forma de equilibrar as coisas.

Mas será realmente justiça?

Ou será a nossa própria mágoa procurando uma justificativa?

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer a nós mesmos.

Poucas pessoas gostam de admitir que estão agindo por vingança. É muito mais confortável acreditar que estamos apenas corrigindo uma injustiça.

Mas vingança e justiça possuem objetivos diferentes.

A vingança deseja devolver o sofrimento.

A justiça procura reparar o dano e evitar que ele volte a acontecer.

A vingança permanece presa ao que aconteceu.

A justiça tenta pensar também no que acontecerá depois.

Por isso, antes de reagirmos a uma ofensa, talvez seja necessário perguntar:

“Quero reparar o que aconteceu ou apenas quero que o outro sinta a mesma dor que senti?”

A resposta pode revelar muito sobre nós.

Também é importante compreender que ser justo não significa tratar todas as pessoas exatamente da mesma maneira.

Duas pessoas podem cometer uma atitude semelhante por razões completamente diferentes.

Uma pode ter agido com intenção de prejudicar.

Outra pode ter tomado uma decisão equivocada em uma situação de desespero.

Compreender as circunstâncias não significa ignorar o erro.

Significa não julgar sem antes tentar enxergar a história inteira.

Talvez seja aí que a compaixão se encontre com a justiça.

Não para eliminar a responsabilidade, mas para impedir que o julgamento seja superficial.

Existe ainda outro aspecto que muitas vezes esquecemos:

não agir também pode produzir injustiça.

Há momentos em que permanecer calado diante de uma situação errada é uma forma de permitir que ela continue.

Existem circunstâncias em que seguir uma ordem simplesmente porque ela é uma ordem pode ser mais cruel do que questioná-la.

Às vezes, contrariar uma regra pode ser necessário para proteger alguém de um dano maior.

Mas isso não significa que toda desobediência seja correta.

Precisamos observar nossas verdadeiras razões.

Estamos tentando impedir um sofrimento?

Estamos defendendo alguém?

Estamos buscando uma solução?

Ou estamos apenas procurando uma justificativa para fazer aquilo que já desejávamos fazer?

A intenção importa, mas não é suficiente.

Mesmo uma boa intenção pode produzir consequências ruins.

Por isso, é preciso considerar os resultados da nossa escolha, pensar em quem será afetado e reconhecer aquilo que talvez não estejamos conseguindo enxergar.

E existe uma atitude essencial nesse processo:

ter humildade para admitir que podemos estar enganados.

Quando acreditamos estar defendendo a justiça, muitas vezes queremos ter certeza de que estamos do lado correto.

Mas a consciência nem sempre oferece respostas prontas.

Às vezes, ela nos coloca diante da dúvida.

E a dúvida pode ser saudável.

Ela nos faz reconsiderar.

Permite ouvir o outro.

Impede que transformemos nossa opinião em verdade absoluta.

Talvez uma das maiores ameaças à justiça seja justamente a certeza de quem acredita que nunca pode estar errado.

Antes de condenar, precisamos perguntar se conhecemos todos os fatos.

Antes de punir, precisamos avaliar se a medida é proporcional.

Antes de reagir, talvez seja melhor deixar a raiva diminuir.

E antes de considerar uma atitude justa, podemos fazer uma pergunta simples:

“Eu aceitaria essa mesma decisão se estivesse no lugar do outro?”

Se a resposta for negativa, talvez seja necessário repensar nossa escolha.

É fácil defender princípios quando eles nos favorecem.

Difícil é mantê-los quando somos nós que precisamos abrir mão de alguma coisa.

Talvez a verdadeira justiça nem sempre seja agradável.

Às vezes, ela exige renúncia.

Em outras ocasiões, pede paciência.

Pode exigir limites.

E pode até nos obrigar a aceitar que não teremos a última palavra.

Por isso, talvez a pergunta inicial precise ser vista de outra maneira.

Não se trata simplesmente de escolher entre justiça e injustiça.

Trata-se de reconhecer que algumas regras podem precisar ser questionadas, mas que ninguém deveria se considerar acima da própria consciência e da responsabilidade por seus atos.

Podemos contestar uma norma.

Podemos enfrentar uma decisão.

Podemos recusar aquilo que consideramos errado.

Mas precisamos estar dispostos a responder pelas consequências das nossas escolhas.

Porque coragem sem reflexão pode se transformar em imprudência.

E justiça sem responsabilidade pode acabar se tornando arrogância.

No fim, talvez justiça não seja fazer alguém sofrer pelo que fez.

Talvez seja procurar uma maneira de reparar o dano e impedir que ele continue se repetindo.

Não devolver a humilhação recebida.

Não permitir que a violência sofrida determine nossa próxima atitude.

Não transformar nossa própria dor em autorização para ferir outra pessoa.

Existe uma armadilha muito perigosa:

quando tentamos combater uma injustiça usando os mesmos métodos que condenamos, podemos acabar reproduzindo aquilo que queríamos eliminar.

Por isso, talvez a pergunta não seja:

“É preciso ser injusto para alcançar a justiça?”

Talvez a pergunta mais importante seja:

“Como posso enfrentar aquilo que considero errado sem me transformar naquilo que estou combatendo?”

Não existe uma resposta simples.

Mas talvez exista um caminho.

Agir com firmeza sem crueldade.

Defender sem destruir.

Corrigir sem humilhar.

Impor limites sem desejar vingança.

E, acima de tudo, nunca deixar que uma injustiça cometida contra nós determine a pessoa que escolheremos ser.

Talvez seja justamente nesse equilíbrio difícil que a verdadeira justiça encontre seu lugar.