Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência · 16

É Possível a Cura?

Existem dores que não deixam sinais visíveis.

Não aparecem na pele, não precisam de curativos e, quase sempre, passam despercebidas por quem está ao redor.

Podem estar escondidas atrás de um sorriso, de uma rotina cheia ou daquele conhecido “estou bem”, repetido tantas vezes que acabamos acreditando nele.

Foi pensando nisso que uma pergunta surgiu dentro de mim:

será que aquilo que um dia nos machucou pode, de fato, deixar de doer?

Durante muito tempo, imaginei que se curar significava esquecer.

Apagar acontecimentos.

Deixar de sentir.

Voltar a ser exatamente como éramos antes daquilo acontecer.

Hoje, já não penso assim.

Há experiências que não desaparecem.

Elas apenas deixam de ocupar o mesmo espaço dentro de nós.

A lembrança permanece, mas já não nos domina.

A ausência continua existindo, porém não impede que a vida prossiga.

A decepção deixa sua marca, mas não precisa determinar nossa maneira de enxergar todas as pessoas.

Talvez seja isso que chamamos de cura.

Não eliminar o passado, mas conseguir olhar para ele sem continuar vivendo dentro dele.

Durante muito tempo, também acreditei que os dias, por si só, resolveriam aquilo que me feria.

Como se bastasse esperar para que tudo desaparecesse.

Mas descobri que o tempo não faz esse trabalho sozinho.

Ele simplesmente continua passando.

Somos nós que precisamos aprender a transformar aquilo que sentimos.

Precisamos conseguir olhar para o que aconteceu e dizer:

“Foi verdadeiro. Machucou. Deixou marcas em mim. Mas não precisa conduzir o restante da minha vida.”

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da reconstrução.

Algumas dores se tornam tão conhecidas que começamos a confundi-las com quem somos.

Quem já foi deixado para trás pode passar a esperar sempre uma nova partida.

Quem sofreu uma traição pode enxergar desconfiança em qualquer gesto.

Quem foi rejeitado pode começar a acreditar que nunca será suficiente.

E, pouco a pouco, aquilo que aconteceu deixa de ser apenas uma lembrança e passa a funcionar como um filtro através do qual enxergamos tudo.

Qualquer aproximação parece perigosa.

Todo afeto parece temporário.

Toda alegria parece trazer consigo a ameaça de uma nova perda.

Então construímos muros.

E chamamos esses muros de proteção.

Mas talvez alguns deles sejam apenas medo disfarçado.

Porque existe um preço quando tentamos impedir qualquer possibilidade de sofrimento:

podemos também afastar as oportunidades de viver coisas boas.

Curar não significa entregar nossa confiança a qualquer pessoa.

Também não significa ignorar os sinais ou permitir que ultrapassem nossos limites.

Em algumas situações, a cura se manifesta justamente na capacidade de dizer não.

De ir embora.

De reconhecer o próprio valor.

De compreender que perdoar alguém não significa necessariamente mantê-lo em nossa vida.

De soltar uma pessoa sem continuar alimentando ressentimento.

E, principalmente, de entender que nem sempre precisamos receber um pedido de desculpas para seguir adiante.

Algumas respostas jamais chegarão.

Algumas pessoas nunca reconhecerão o que fizeram.

Nem todas as histórias terminam como gostaríamos.

Talvez uma parte importante da cura seja aceitar isso.

Aceitar que certas histórias ficarão incompletas.

Que algumas perguntas permanecerão sem resposta.

E que ainda assim podemos continuar caminhando.

Até que, em algum momento, percebemos uma mudança.

Aquela lembrança que antes nos derrubava já não tem a mesma força.

Ainda existe emoção, mas ela não nos destrói.

É como tocar uma cicatriz.

Sabemos que houve uma ferida.

Conhecemos a história.

Mas ela já não está aberta.

É nesse instante que talvez compreendamos algo essencial:

não precisamos esquecer para conseguir seguir em frente.

Precisamos apenas deixar de viver presos àquilo que nos feriu.

O passado pode explicar algumas das nossas marcas.

Mas não precisa determinar todas as nossas escolhas futuras.

Podemos mudar de caminho.

Podemos começar outra vez.

Podemos descobrir que ainda existem pessoas capazes de nos tratar com respeito.

Que ainda existem encontros inesperados.

Que ainda há momentos capazes de devolver sentido aos dias.

A vida não termina naquilo que nos aconteceu.

Às vezes, a cura chega sem fazer barulho.

Surge quando voltamos a rir espontaneamente.

Quando começamos a planejar novamente.

Quando conseguimos olhar para uma fotografia antiga sem desejar voltar àquele tempo.

Quando falamos sobre determinada pessoa sem sentir a necessidade de culpá-la.

Quando entendemos que não precisamos de todas as respostas para continuar vivendo.

Talvez curar seja justamente isso:

parar de esperar que o passado seja diferente para conseguir construir um presente diferente.

Não precisamos transformar a dor em algo bonito.

Nem acreditar que todo sofrimento acontece por algum motivo especial.

Existem acontecimentos que simplesmente foram dolorosos.

Existem perdas que jamais parecerão justas.

Existem feridas que nunca deveríamos ter recebido.

Mas ainda podemos decidir o que faremos depois delas.

Podemos transformar sofrimento em consciência.

Experiência em maturidade.

Marcas em aprendizado.

E medo em força para recomeçar.

Talvez nem tudo dentro de nós possa ser completamente restaurado.

Algumas marcas podem permanecer durante toda a vida.

E isso não significa que continuamos machucados.

Existe uma diferença entre carregar uma cicatriz e permanecer dentro da ferida.

A cicatriz lembra que algo aconteceu.

A ferida ainda precisa ser cuidada.

E talvez o verdadeiro sinal de recuperação seja perceber que, apesar de tudo o que vivemos, ainda existe espaço dentro de nós para desejar, sonhar, amar e esperar.

Talvez não voltemos a ser exatamente quem éramos antes da dor.

E talvez isso não seja necessariamente ruim.

Algumas experiências nos fazem perceber com mais clareza quem somos.

Mostram nossos limites.

Revelam aquilo que não queremos mais aceitar.

E nos ensinam que reconstruir a própria vida também é uma forma de coragem.

No final, talvez a cura não esteja em voltar ao passado para consertá-lo.

Talvez esteja em olhar para o presente e perceber que aquilo que nos feriu já não possui o controle sobre nossas escolhas.

A história continua fazendo parte de nós.

A cicatriz permanece.

Mas a ferida pode fechar.

E nós podemos seguir.

Talvez seja isso que significa estar curado: lembrar sem querer retornar, sentir sem se perder e continuar vivendo sem precisar apagar aquilo que um dia fez parte da nossa história.