Veste o teu balandrau.
Não aquele que se usa para esconder o corpo, mas aquele que protege a alma dos olhos curiosos do mundo.
Coloca o capuz.
Deixa que a noite reconheça os teus passos.
E vem comigo.
Vamos caminhar até a beira do penhasco.
Não tenhas medo.
Eu estarei ao teu lado.
Quando chegarmos lá, diante da imensidão, talvez o vento nos pergunte quem somos.
Não precisaremos responder.
Eu te reconheço como meu Mago.
E tu me reconhecerás como tua Bruxa.
Não porque alguém nos contou.
Não porque algum livro antigo escreveu nossos nomes.
Mas porque existem pessoas que a alma reconhece antes mesmo que a razão consiga compreendê-las.
Talvez tenhamos nos procurado em outras vidas.
Talvez tenhamos caminhado por estradas diferentes, atravessado cidades, amado outras pessoas, cometido erros, carregado feridas e aprendido a sobreviver sem saber exatamente o que faltava.
E talvez o que faltava fosse simplesmente este encontro.
O nosso.
Fica perto de mim.
Não largues a minha mão.
Há abismos que só podem ser atravessados quando duas mãos permanecem unidas.
Se um de nós vacilar, o outro sustentará.
Se um tiver medo, o outro permanecerá.
Se um esquecer quem é, o outro lembrará.
Essa será a nossa primeira magia.
A confiança.
Agora fecha os olhos.
Comigo.
Não olhes para baixo.
Não olhes para o que ficou para trás.
Escuta apenas o vento.
Ele está levando embora aquilo que não precisamos mais carregar.
Respira profundamente.
Sente o ar entrando.
Sente o coração.
Sente o corpo.
E, aos poucos, deixa que o peso desapareça.
Não precisaremos mais carregar culpas.
Nem antigas decepções.
Nem promessas quebradas.
Nem nomes de pessoas que já não fazem parte da nossa história.
Deixa tudo no alto daquele penhasco.
Que o vento leve.
Que a noite transforme.
Que a terra sepulte.
E, se uma emoção inesperada chegar, não a detenhas.
Chora.
Chora tudo aquilo que nunca conseguiste dizer.
Deixa as lágrimas percorrerem o rosto.
Elas não serão sinal de fraqueza.
Serão água de purificação.
Cada lágrima levará consigo um pedaço do passado.
E, quando o último vestígio de dor cair dos teus olhos, talvez finalmente possamos enxergar um ao outro sem as máscaras que aprendemos a usar para sobreviver.
Então me pergunta:
— Estás pronta?
E eu responderei:
— Agora estou.
E perguntarei:
— E tu?
Se disseres sim, soltaremos nossos corpos no vazio.
Juntos.
Sem saber o que haverá depois.
E será justamente aí que descobriremos que o vazio não era o fim.
Era passagem.
O abismo não nos engolirá.
O próprio vazio sustentará nossos corpos.
Flutuaremos.
Como se a gravidade tivesse perdido o poder sobre nós.
Como se o universo, por alguns segundos, tivesse decidido abrir uma exceção.
Não haverá chão.
Não haverá direção.
Apenas o vento passando por nossos cabelos e nossas mãos ainda entrelaçadas.
E riremos.
Talvez pela primeira vez em muito tempo.
Riremos porque descobriremos que aquilo que parecia impossível era apenas algo que ainda não havíamos tentado.
Flutuaremos sobre a floresta.
As árvores parecerão pequenas.
A lua estará acima de nós.
E, lá embaixo, a escuridão esconderá todos os caminhos que já percorremos.
Seguiremos para a nossa cabana.
Ela estará escondida entre árvores antigas, onde a luz da lua atravessa as folhas como fios de prata.
Ninguém saberá onde fica.
Ou talvez muitos saibam e simplesmente não consigam encontrá-la.
Porque existem lugares que só aparecem para aqueles que aprenderam a enxergar além do óbvio.
Aquela será a nossa morada.
O nosso refúgio.
O lugar onde o Mago poderá deixar de ser guerreiro.
E a Bruxa poderá deixar de ser feiticeira.
Ali, seremos apenas dois seres tentando compreender o milagre de terem se encontrado.
Mas não pense que o mundo nos deixará em paz.
Quando dois seres se reconhecem verdadeiramente, alguma coisa se move ao redor deles.
Forças antigas despertam.
Aliados surgem.
Exércitos se formam.
Uns virão para proteger.
Outros, para impedir.
Alguns lutarão por nós.
Outros lutarão contra aquilo que não conseguem compreender.
E muitos tombarão.
Quantos?
Não saberemos.
Há batalhas que acontecem longe dos olhos humanos.
Há guerras travadas dentro de cada coração.
E nem sempre aqueles que caem estão mortos.
Às vezes apenas deixam de ser quem eram.
Nós também teremos nossas batalhas.
Haverá noites em que a dúvida tentará entrar pela porta.
Haverá manhãs em que o silêncio parecerá grande demais.
Haverá momentos em que um de nós pensará em partir.
Mas haverá sempre uma mão procurando a outra.
E, enquanto nossas mãos se encontrarem, a história continuará.
Porque a nossa magia não estará apenas nos feitiços.
Estará na escolha de permanecer.
Então, um dia, nossas mãos começarão a emitir luz.
Primeiro, uma pequena faísca.
Depois, uma corrente luminosa.
Até que raios atravessarão nossos dedos e iluminarão a floresta inteira.
Será uma energia tão poderosa que parecerá atravessar a própria matéria.
Uma força quase atômica.
Indomável.
Antiga.
Nascida não da destruição, mas da união de duas forças que finalmente encontraram equilíbrio.
E o amarelão poderá ser visto no horizonte.
Como um grande sinal.
Como se o próprio céu estivesse anunciando que alguma coisa mudou.
Nesse instante, olharemos um para o outro.
E nossos olhos se tornarão um só.
Não haverá mais dois olhares.
Haverá uma única visão.
Tu enxergarás através de mim.
Eu enxergarei através de ti.
Veremos aquilo que as palavras escondem.
As intenções.
Os medos.
As verdades.
As mentiras.
As feridas.
E também aquilo que ainda pode ser salvo.
Nossos olhos serão capazes de atravessar as sombras.
E quem ousar nos desafiar descobrirá que existem luzes que não podem ser enfrentadas sem que se corra o risco de ficar cego.
Mas nós não usaremos nosso poder para dominar.
Porque aprenderemos que verdadeira magia não é controlar o outro.
É não precisar controlá-lo.
Será liberdade.
Será escolha.
Será entrega.
E nossos corpos também conhecerão uma linguagem que não precisa de palavras.
Haverá momentos em que seremos dois.
E haverá momentos em que pareceremos um.
Nossos corpos se encontrarão como duas águas que esquecem onde termina uma e começa a outra.
Entrelaçados.
Transpassados.
Fundidos pelo desejo e pelo mistério.
Não haverá pressa.
Não haverá necessidade de explicar.
Apenas presença.
E talvez, naquele instante, o próprio tempo recue.
Porque existem encontros que parecem fazer o relógio perder o sentido.
A fome será de um pelo outro.
Mas não será uma fome que destrói.
Será a fome de presença.
De proximidade.
De pele.
De alma.
De olhar.
A fome de continuar descobrindo alguém que parece conhecido e desconhecido ao mesmo tempo.
E nos mataremos diariamente.
Não de forma literal.
Morreremos para aquilo que fomos.
Morreremos para o orgulho.
Para o medo.
Para as certezas.
Para as máscaras.
Para a necessidade de ter razão.
E nasceremos novamente.
Todos os dias.
Um no outro.
Porque amar alguém verdadeiramente talvez seja aceitar morrer muitas vezes sem deixar de escolher renascer ao lado da mesma pessoa.
A cabana será testemunha de tudo.
Dos nossos risos.
Dos nossos silêncios.
Das tempestades.
Dos abraços.
Das brigas.
Das reconciliações.
Das noites em que o mundo parecerá pequeno demais para caber dentro de nós.
E das manhãs em que bastará abrir a janela para descobrir que ainda estamos juntos.
Ninguém se atreverá a invadir aquele lugar.
Não porque teremos muralhas.
Mas porque haverá algo invisível protegendo a entrada.
Um pacto.
Uma energia.
Um segredo.
Aquela cabana não pertencerá ao Mago.
Nem à Bruxa.
Pertencerá ao encontro.
Porque algumas coisas não podem ser possuídas.
Apenas vividas.
E assim os anos passarão.
Talvez envelheçamos.
Talvez nossos cabelos mudem de cor.
Talvez nossos corpos já não tenham a mesma força.
Mas haverá algo que o tempo não conseguirá tocar.
O reconhecimento.
Aquele primeiro olhar diante do penhasco.
A mão que não foi solta.
O salto no vazio.
A descoberta de que o abismo podia sustentar.
E chegará o dia em que a noite será mais silenciosa.
O vento entrará devagar pela janela.
A floresta parecerá prender a respiração.
E nós saberemos.
Será o momento.
Não haverá medo.
Apenas uma estranha serenidade.
Tu segurarás minha mão.
Eu segurarei a tua.
E talvez não digamos absolutamente nada.
Porque, depois de uma vida inteira juntos, algumas palavras se tornam pequenas demais.
Então olharemos uma última vez para a floresta.
Para a cabana.
Para a lua.
E um para o outro.
E compreenderemos.
Não foi acaso.
Não foi apenas desejo.
Não foi apenas destino.
Foi reconhecimento.
Duas almas que, depois de atravessarem caminhos diferentes, finalmente chegaram ao mesmo lugar.
O encontro inevitável.
O encontro que não precisou ser procurado.
Porque já estava acontecendo muito antes de nós percebermos.
E, quando os últimos suspiros chegarem, não haverá separação.
Haverá apenas transformação.
O Mago deixará o corpo.
A Bruxa deixará o corpo.
Mas aquilo que os uniu permanecerá.
Talvez vire vento.
Talvez vire estrela.
Talvez vire uma luz escondida entre as árvores.
Talvez permaneça apenas como uma sensação inexplicável no coração de quem passar pela floresta.
E quem escutar com atenção poderá ouvir duas vozes misturadas ao som das folhas:
— Eu te reconheço.
E a outra responderá:
— Eu sempre soube que encontraria você.
Então a floresta ficará em silêncio.
A cabana permanecerá de pé.
E, em algum lugar entre o céu e a terra, duas almas seguirão viajando.
Não mais como Bruxa e Mago.
Não mais como dois.
Mas como aquilo que descobriram ser desde o princípio:
uma única história escrita em duas almas.
E talvez seja esse o maior mistério de todos:
alguns encontros não acontecem para começar uma história.
Acontecem porque a história já existia.
Nós apenas demoramos para chegar até a página em que nossos nomes finalmente se encontram.