Quando eu era a criança, loira dos olhos azuis, ainda não sabia que o tempo colecionava despedidas.
Meu mundo cabia no perfume da terra molhada, no vento brincando entre meus cabelos e na certeza de que o amanhã sempre chegaria sorrindo.
Meus olhos não eram apenas azuis. Eram janelas abertas para um universo onde tudo parecia possível.
Neles, o céu encontrava morada, e as estrelas ainda não conheciam o peso dos sonhos interrompidos.
Em meus pequenos passos, caminhava leve, como quem conversa com os pássaros sem precisar de palavras.
As flores pareciam reconhecer-me pelo silêncio, e o sol derramava fios de ouro sobre meus cabelos, como se a infância fosse uma cor que Deus havia inventado para pintar os dias felizes.
Eu não precisava de espelhos para saber quem eu era.
Simplesmente era.
Era riso sem motivo, abraço sem medo, esperança sem explicação e fé sem perguntas.
Naquele tempo, eu acreditava que as coisas bonitas duravam para sempre.
Não sabia que algumas pessoas partiriam, que certos abraços se transformariam em saudade e que o tempo, silenciosamente, levaria consigo partes daquilo que eu julgava eterno.
Então, o tempo chegou.
Trouxe ventos mais fortes, caminhos desconhecidos e tempestades que, aos poucos, aprenderam meu nome.
A menina cresceu.
Os cabelos perderam o brilho dourado de outrora, os olhos descobriram as lágrimas e o coração aprendeu uma das mais difíceis lições da vida: amadurecer também é aprender a perder.
Perdemos pessoas, lugares, sonhos, certezas.
E, algumas vezes, perdemos até versões de nós mesmas que gostaríamos de guardar para sempre.
Mas há algo que o tempo jamais conseguiu alcançar: em algum lugar profundo dentro de mim, continua vivendo aquela menina de cabelos iluminados e olhos da cor do céu.
Ela ainda corre atrás das borboletas invisíveis, conversa com as nuvens e acredita que existe beleza escondida até mesmo nas cicatrizes.
Às vezes, quando o mundo faz barulho demais, fecho os olhos e volto para encontrá-la.
E ela está lá.
Sem cobranças.
Sem perguntas.
Apenas estende a mão e me conduz de volta ao lugar onde, um dia, fui inteira.
É então que ela me sussurra, baixinho, aquilo que a vida tantas vezes tenta me fazer esquecer:
A essência nunca envelhece.
E compreendo que crescer não significou abandonar aquela menina.
Volto para ela sempre que a vida pesa.
Sempre que a tristeza tenta apagar as cores.
Sempre que o mundo me convence de que já não há espaço para sonhar.
Porque aquela criança ainda mora em mim.
A menina loira dos olhos azuis ainda olha para o céu.
Ainda guarda no coração a delicadeza de quem um dia acreditou que o mundo era feito de possibilidades.
E talvez seja por isso que, apesar de tudo o que o tempo levou, ainda exista em mim uma esperança que se recusa a morrer: a inocência.
Aquela menina me ensinou que algumas coisas podem mudar, partir ou envelhecer, mas aquilo que nasceu verdadeiro dentro de nós, permanece.
E, quando a vida parece pesada demais, é para ela que eu volto.
Para os cabelos dourados.
Para os olhos azuis.
Para o riso sem medo.
Para a menina que fui e que, de alguma forma, nunca deixei de ser.
Ela ainda segura minha mão.
E ainda acredita que amanhã pode chegar sorrindo.