Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência · 24

Deus ainda fala em meio a tantas vozes?

Ilustração — Deus ainda fala em meio a tantas vozes?

Maria acordou naquela manhã com a impressão de que o mundo já estava falando antes mesmo que ela abrisse os olhos.

O celular vibrava sobre a mesa de cabeceira. Mensagens, notícias, imagens, opiniões. Antes de colocar os pés no chão, já havia recebido informações suficientes para ocupar a cabeça pelo resto do dia.

Era estranho viver em um tempo em que todos queriam ser ouvidos e quase ninguém parecia disposto a escutar.

As pessoas tinham respostas para tudo. Diziam o que era certo, o que era errado, quem merecia confiança, quem deveria ser perdoado, como alguém deveria viver e até como deveria sentir.

Maria, porém, carregava uma pergunta que nenhuma dessas vozes conseguia responder:

Deus ainda fala?

Ou será que fomos nós que esquecemos como ouvi-Lo?

O excesso de vozes

Durante muito tempo, Maria imaginou que uma resposta de Deus precisaria ser extraordinária.

Esperava um sinal inequívoco.

Uma coincidência impossível.

Uma porta que se abrisse no momento exato.

Uma certeza tão forte que não deixasse espaço para dúvida.

Quando precisava tomar uma decisão, rezava:

— Deus, mostra-me o caminho.

Quando sofria, perguntava:

— Por que isso está acontecendo comigo?

Quando se sentia perdida, esperava alguma indicação.

Mas, muitas vezes, nada acontecia.

O céu permanecia silencioso.

Os problemas continuavam.

As dúvidas também.

E Maria começou a acreditar que talvez Deus tivesse parado de responder.

Até que uma noite se perguntou:

E se Deus nunca tivesse deixado de falar? E se eu apenas não soubesse mais escutar?

O silêncio que assusta

Naquela noite, Maria desligou o celular.

Depois, a televisão.

Fechou o computador.

Apagou algumas luzes e abriu a janela.

Sentou-se.

No começo, o silêncio incomodou.

Ela percebeu que estava tão acostumada ao ruído que já não sabia o que fazer quando ninguém falava.

Então vieram os pensamentos.

As lembranças.

As perdas.

Os arrependimentos.

As palavras que gostaria de ter dito.

As pessoas que gostaria de ter procurado.

Os caminhos que não sabia se deveria ter seguido.

Maria quase pegou o celular novamente.

Mas decidiu permanecer.

Respirou profundamente.

E começou a ouvir.

Primeiro, a chuva.

Depois, o vento.

Os galhos das árvores.

Sua própria respiração.

Foi quando percebeu:

o silêncio não estava vazio.

Ele apenas não competia pela sua atenção.

Uma conversa inesperada

Na manhã seguinte, Maria saiu para caminhar.

Em uma praça, encontrou um senhor sentado sob uma árvore. Ele alimentava alguns pássaros e parecia não ter pressa alguma.

Maria se aproximou.

— Posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— O senhor acredita que Deus ainda fala?

O homem sorriu.

— Por que acha que Ele parou?

Maria abaixou os olhos.

— Porque eu pergunto e não ouço respostas.

O homem ficou alguns segundos em silêncio.

Depois apontou para a árvore.

— Você consegue ouvir aquela árvore?

— Não.

— Mas isso significa que ela não está dizendo nada?

Maria observou as folhas balançando.

— Talvez não.

O homem sorriu.

— Existem coisas que não precisam de palavras para serem percebidas.

Maria não respondeu.

Mas levou aquela frase consigo.

Aprender a distinguir

A partir daquele dia, começou a observar mais atentamente aquilo que acontecia dentro dela.

Percebeu que algumas sensações traziam paz.

Outras provocavam apenas medo.

Algumas escolhas pareciam difíceis, mas deixavam uma tranquilidade profunda.

Outras pareciam fáceis, mas carregavam uma inquietação que não desaparecia.

Maria começou a compreender que nem toda voz interior deveria ser obedecida.

O medo também fala.

A raiva fala.

O orgulho fala.

A ansiedade fala.

A necessidade de aprovação fala.

Até a mágoa encontra argumentos para justificar suas decisões.

Então passou a perguntar:

“O que essa voz está produzindo em mim?”

Se a resposta a tornava mais cruel, esperava.

Se alimentava vingança, reconsiderava.

Se aumentava seu orgulho, desconfiava.

Mas se a conduzia para a verdade, para a compaixão, para o perdão e para a serenidade, prestava atenção.

Talvez discernir também fosse uma forma de oração.

Quando o perdão chegou

Certa vez, alguém que havia ferido Maria profundamente voltou a procurá-la.

Pediu desculpas.

Ela leu a mensagem várias vezes.

Sentiu raiva.

Depois tristeza.

Depois vontade de responder com a mesma dureza que havia recebido.

Naquela noite, Maria sentou-se novamente diante da janela.

— Deus, eu não sei o que fazer.

Nenhuma voz respondeu.

Nenhum sinal apareceu.

Mas uma ideia surgiu dentro dela:

“Não permita que aquilo que fizeram com você determine quem você vai se tornar.”

Maria compreendeu que perdoar não significava esquecer.

Não significava aceitar novamente aquilo que a machucara.

Não significava reabrir uma porta que precisava permanecer fechada.

Perdoar poderia significar apenas não carregar mais aquela história como uma ferida aberta.

Ela respondeu.

Foi firme.

Mas não foi cruel.

E, depois de enviar a mensagem, sentiu algo que há muito tempo não sentia:

paz.

Talvez Deus não tivesse respondido com palavras.

Talvez tivesse respondido através daquela paz.

Nem toda oração muda o mundo

Maria também aprendeu que nem toda oração muda aquilo que está fora de nós.

Algumas mudam aquilo que existe dentro.

Havia coisas pelas quais havia pedido e que nunca aconteceram.

Pessoas que desejou salvar e não conseguiu.

Portas que esperou que se abrissem e permaneceram fechadas.

Despedidas que não pôde evitar.

Durante muito tempo, acreditou que isso significava falta de fé.

Depois compreendeu que talvez tivesse confundido fé com garantia.

Ter fé não significa nunca sofrer.

Não significa receber tudo aquilo que pedimos.

Talvez fé seja continuar caminhando mesmo quando não entendemos a estrada.

Talvez seja acreditar que a ausência de uma resposta não significa necessariamente ausência de Deus.

O Deus que não grita

Certa tarde, Maria entrou em uma pequena igreja.

Não havia ninguém.

Sentou-se no último banco.

Uma faixa de luz atravessava a janela e tocava o chão.

Ela permaneceu ali.

Não pediu nada.

Não tentou encontrar explicações.

Apenas respirou.

Depois de alguns minutos, começou a chorar.

Era um choro tranquilo.

Como se finalmente tivesse permitido a si mesma descansar da necessidade de compreender tudo.

Maria percebeu que talvez estivesse procurando Deus nas explicações, quando poderia encontrá-Lo na serenidade.

Não uma serenidade que prometesse uma vida sem dificuldades.

Mas uma que dissesse:

“Você pode continuar.”

O mundo continua fazendo barulho

Maria não abandonou o mundo.

Continuou usando o telefone.

Continuou acompanhando as notícias.

Continuou conversando com as pessoas.

Mas passou a criar pequenos espaços de silêncio.

Caminhava sem fones.

Tomava café sem olhar para a tela.

Observava o céu.

Escutava a chuva.

Antes de dormir, permanecia alguns minutos sozinha.

Às vezes rezava.

Às vezes agradecia.

Às vezes chorava.

E algumas vezes não sentia absolutamente nada.

Aprendeu que isso também fazia parte.

Porque silêncio não precisa produzir milagres.

Às vezes, ele apenas nos devolve a nós mesmos.

Uma pergunta de criança

Certa noite, sua filha perguntou:

— Mamãe, como você sabe quando Deus está falando?

Maria sorriu.

— Eu não sei sempre.

— Então como você percebe?

Maria segurou a mão da menina.

— Talvez eu tenha aprendido a observar o que certas escolhas despertam dentro de mim.

— Como assim?

— Quando algo me torna mais amorosa, verdadeira e paciente, eu paro para escutar. Quando me transforma em alguém cruel, orgulhosa ou dominada pelo medo, procuro ter cuidado.

A menina pensou um pouco.

— Deus fala baixinho?

Maria olhou para ela.

— Talvez.

— Por quê?

Maria sorriu.

— Porque talvez aquilo que realmente precisa ser ouvido não precise gritar.

O silêncio como encontro

Maria começou a perceber que talvez Deus não esteja apenas nos grandes acontecimentos.

Talvez esteja na consciência que nos impede de ferir alguém.

Na mão que se estende.

No perdão que conseguimos oferecer.

Na coragem de recomeçar.

Na decisão de não devolver uma ofensa.

Na compaixão que nasce quando seria mais fácil julgar.

Na esperança que permanece depois de uma perda.

Na vontade de fazer o bem mesmo quando ninguém está olhando.

Talvez Deus não esteja tentando impressionar ninguém.

Talvez esteja apenas transformando silenciosamente aqueles que conseguem perceber Sua presença.

Afinal, Deus ainda fala?

Certa noite, Maria voltou à janela.

A cidade estava cheia de sons.

Carros.

Conversas.

Sirenes.

Telefones.

Televisões.

O mundo continuava inquieto.

Mas, dentro dela, havia calma.

Maria fechou os olhos.

Dessa vez, não perguntou:

“Deus, estás aí?”

Apenas disse:

— Eu estou aqui.

E compreendeu que talvez essa fosse a primeira coisa que precisava aprender.

Antes de procurar Deus em algum lugar distante, precisava estar presente em sua própria vida.

Talvez Deus não tivesse ido embora.

Talvez ela apenas tivesse se afastado de si mesma.

A voz que permanece

Talvez Deus ainda fale.

Talvez fale através de uma porta que se fecha.

De uma oportunidade inesperada.

De uma pessoa que aparece no momento certo.

De uma perda que nos transforma.

De uma despedida.

De um recomeço.

De uma paz que não conseguimos explicar.

Talvez fale através da natureza, da bondade, da compaixão e do silêncio.

Talvez fale quando escolhemos amar apesar das feridas.

Quando perdoamos sem esquecer.

Quando reconhecemos um erro.

Quando desistimos de controlar o que nunca esteve em nossas mãos.

E talvez fale justamente quando paramos de exigir respostas.

Porque algumas verdades não chegam fazendo barulho.

Elas chegam devagar.

Como a luz entrando pela janela.

Como a chuva tocando o telhado.

Como uma lembrança que finalmente deixa de doer.

Como uma paz que aparece sem pedir licença.

O último silêncio

Antes de dormir, Maria abriu seu caderno e escreveu:

“Passei muito tempo esperando que Deus falasse mais alto. Hoje compreendo que talvez Ele sempre tenha falado baixo, e eu é que estava ocupada demais ouvindo o mundo.”

Fechou o caderno.

Apagou a luz.

E permaneceu alguns instantes em silêncio.

Não recebeu nenhuma revelação.

Nenhuma resposta definitiva.

Nenhuma promessa de que o amanhã seria fácil.

Mas sentiu uma tranquilidade que não dependia do futuro.

E talvez tenha sido justamente ali que encontrou sua resposta.

Talvez a fé não seja enxergar o caminho inteiro.

Talvez seja confiar o bastante para dar o próximo passo.

O mundo continuará falando.

As pessoas continuarão opinando.

As telas continuarão acesas.

As notícias continuarão chegando.

Mas existe dentro de cada um de nós um lugar que o barulho não consegue alcançar.

Um espaço onde não precisamos provar nada.

Onde não precisamos agradar ninguém.

Onde podemos simplesmente ser.

Talvez seja nesse lugar que Deus escolha falar.

Não através do estrondo.

Não através da imposição.

Não através de respostas prontas.

Mas através daquela pequena paz que chega quando tudo finalmente se cala.

Talvez Deus nunca tenha deixado de falar.

Talvez nós apenas tenhamos esquecido como fazer silêncio para ouvi-Lo.