Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência · 26

Somos livres ou apenas escolhemos entre caminhos já traçados?

Ilustração — Somos livres...

Há questões que atravessam gerações porque nunca encontram uma resposta completamente definitiva. Uma delas talvez seja uma das mais inquietantes:

Até que ponto somos donos das nossas escolhas?

Gostamos de acreditar que conduzimos nossa própria existência. Dizemos que escolhemos onde ficar, quem amar, o que fazer, quando partir e quais sonhos perseguir.

Mas será que essas decisões nascem realmente de uma liberdade plena?

Ou nossas escolhas são influenciadas por tudo aquilo que vivemos antes mesmo de termos consciência de que estávamos escolhendo?

Ninguém decide onde nascer.

Não escolhemos nossa família, nossa época, nosso lugar de origem, as condições que encontramos ao chegar ao mundo ou as primeiras experiências que moldaram nossa maneira de perceber a realidade.

Antes mesmo de aprendermos a dizer “eu”, já existiam pessoas, valores e circunstâncias ajudando a construir aquilo que um dia chamaríamos de personalidade.

Recebemos um nome.

Aprendemos uma língua.

Absorvemos costumes.

Conhecemos crenças.

Desenvolvemos medos.

Descobrimos limites.

E, pouco a pouco, vamos formando uma ideia sobre quem somos.

Então, quando começamos a fazer nossas próprias escolhas, já carregamos uma história dentro delas.

Mas uma decisão influenciada deixa de ser verdadeiramente nossa?

Talvez não.

Mas talvez também não seja tão livre quanto acreditamos.

Pense em alguém que cresceu ouvindo que precisava ser forte o tempo inteiro.

Aprendeu a esconder o sofrimento.

A não demonstrar fragilidade.

A resolver tudo sozinho.

Anos depois, essa pessoa pode acreditar que simplesmente “é assim”.

Mas será que é?

Ou apenas transformou uma defesa aprendida em parte da própria identidade?

Talvez muitas características que consideramos naturais sejam, na verdade, respostas que desenvolvemos para sobreviver às circunstâncias.

E perceber isso pode ser desconfortável.

Porque significa reconhecer que nem sempre conhecemos as verdadeiras razões por trás das nossas decisões.

Escolhemos quem amar, mas levamos conosco experiências anteriores.

Escolhemos em quem confiar, mas nossas feridas também participam dessas escolhas.

Escolhemos nossos objetivos, mas nossas referências familiares e sociais podem ter influenciado aquilo que aprendemos a desejar.

Escolhemos permanecer ou partir, mas medo, esperança, dependência, responsabilidade e afeto também podem interferir.

Então surge uma questão inevitável:

Se tantas coisas interferem nas nossas decisões, quão livres somos de fato?

Talvez a liberdade humana não seja absoluta.

Talvez ela exista dentro de determinadas fronteiras.

Somos livres, mas não começamos nossa caminhada do zero.

Existe uma diferença entre liberdade e ausência de limites.

Ser livre não significa poder realizar qualquer coisa.

Podemos desejar algo que esteja além das nossas possibilidades.

Podemos querer voltar ao passado, mas o tempo não retorna.

Podemos desejar que alguém nos ame, mas não podemos determinar o sentimento dessa pessoa.

Podemos querer permanecer jovens, mas não podemos impedir o envelhecimento.

Podemos desejar controlar o futuro, mas ele continua desconhecido.

A liberdade talvez não esteja em controlar tudo aquilo que acontece.

Talvez esteja na maneira como escolhemos responder ao que acontece.

E talvez seja justamente aí que destino e livre-arbítrio deixem de parecer completamente opostos.

Talvez existam acontecimentos que chegam sem nossa autorização.

Uma perda.

Um encontro.

Uma doença.

Uma oportunidade.

Uma mudança inesperada.

Não escolhemos necessariamente aquilo que aparece diante de nós.

Mas podemos, dentro de certos limites, escolher como reagir.

Recebemos algumas circunstâncias.

Depois fazemos escolhas.

Essas escolhas produzem consequências.

As consequências criam novas situações.

E novamente somos colocados diante de decisões.

Talvez a vida seja uma sequência de encruzilhadas dentro de uma estrada que não fomos nós que construímos.

Maria começou a compreender isso quando revisitou algumas decisões da própria vida.

Durante muito tempo, acreditou que determinadas escolhas tinham sido feitas porque realmente desejava aquelas coisas.

Com o passar dos anos, percebeu que algumas decisões nasceram do desejo de agradar.

Outras foram motivadas pelo receio de perder alguém.

Algumas surgiram da necessidade de ser aceita.

Havia escolhas que pareciam amor, mas escondiam medo.

Permanências que pareciam lealdade, mas eram apenas dificuldade de partir.

Silêncios que pareciam tranquilidade, mas eram medo de enfrentar determinadas verdades.

Então ela percebeu algo importante:

às vezes pensamos que estamos escolhendo, quando apenas estamos repetindo aquilo que aprendemos.

Talvez a liberdade comece justamente quando começamos a questionar nossos próprios padrões.

“Por que eu quero isso?”

“Essa vontade realmente nasceu em mim?”

“Ou aprendi que deveria querer?”

“Estou permanecendo porque amo?”

“Ou porque tenho medo de ficar sozinho?”

“Estou dizendo sim porque desejo?”

“Ou porque não soporto decepcionar alguém?”

São perguntas incômodas.

Mas podem abrir portas.

Porque enquanto não examinamos nossas motivações, podemos passar anos seguindo um roteiro escrito por outras pessoas.

A sociedade também estabelece muitos roteiros.

Existe uma idade considerada adequada para estudar.

Outra para trabalhar.

Outra para casar.

Outra para construir uma família.

Outra para alcançar determinados bens.

Outra para diminuir o ritmo.

E quem escolhe um caminho diferente muitas vezes precisa enfrentar julgamentos.

Mas quem decidiu que existe apenas uma maneira correta de viver?

Talvez uma das formas mais difíceis de liberdade seja perceber que não somos obrigados a seguir uma vida apenas porque ela parece normal para os outros.

Mas liberdade não significa fazer tudo aquilo que temos vontade.

Essa também é uma ilusão.

Nossas escolhas atingem outras pessoas.

Por isso, liberdade precisa estar acompanhada de responsabilidade.

Não podemos usar nossa autonomia como justificativa para ferir, controlar ou desrespeitar alguém.

Ser livre também significa reconhecer que cada decisão produz consequências.

Talvez a verdadeira liberdade não esteja apenas no direito de escolher.

Esteja também na disposição de assumir o resultado daquilo que escolhemos.

Existe ainda uma prisão silenciosa: acreditar que não temos escolha alguma.

“Eu sou assim.”

“Minha vida sempre foi desse jeito.”

“Não adianta tentar.”

“Não há nada que eu possa fazer.”

Em algumas situações, realmente temos pouquíssimas alternativas.

Mas poucas possibilidades não significam necessariamente nenhuma possibilidade.

Às vezes, a escolha é pequena.

Pode ser dizer não.

Pode ser pedir ajuda.

Pode ser estabelecer um limite.

Pode ser abandonar um hábito.

Pode ser mudar uma forma de pensar.

Pode ser simplesmente decidir não repetir aquilo que sempre fizemos.

E uma pequena mudança pode alterar todo o caminho seguinte.

Talvez a liberdade humana seja menos grandiosa do que imaginamos.

Não está necessariamente em escolher entre centenas de caminhos.

Às vezes, está em reconhecer qual das poucas opções disponíveis ainda corresponde àquilo que somos.

Não podemos alterar tudo.

Mas podemos alterar algumas coisas.

Não podemos controlar todos os acontecimentos.

Mas podemos controlar algumas respostas.

Não podemos mudar determinadas pessoas.

Mas podemos escolher quanto espaço elas ocuparão dentro de nós.

Não podemos reescrever o passado.

Mas podemos decidir como continuaremos depois dele.

Talvez destino e liberdade possam existir ao mesmo tempo.

Talvez determinadas situações precisem acontecer, mas o significado delas dependa daquilo que fazemos depois.

Talvez a vida coloque certas pessoas em nosso caminho, mas não determine o que faremos com esses encontros.

Talvez algumas portas apareçam diante de nós, mas sejamos nós que decidimos atravessá-las.

Talvez o destino apresente as possibilidades e o livre-arbítrio escolha algumas delas.

Não sabemos.

E talvez nunca saibamos completamente.

Mas existe algo que podemos investigar:

as escolhas que fazemos são realmente nossas?

Essa pergunta pode mudar uma vida.

Porque existe uma enorme diferença entre viver de acordo com nossos valores e viver obedecendo expectativas que nunca questionamos.

Talvez tenhamos passado anos tentando ser aquilo que alguém esperava.

Talvez tenhamos escolhido determinados caminhos para evitar conflitos.

Talvez tenhamos confundido aprovação com amor.

Talvez tenhamos chamado de destino aquilo que, na verdade, era apenas medo.

Reconhecer isso pode doer.

Mas também pode libertar.

Maria percebeu que não precisava mudar toda a sua história para recuperar a própria liberdade.

Bastava começar pelo próximo passo.

Ela não poderia apagar o que aconteceu.

Não poderia desfazer antigas escolhas.

Não poderia trazer determinadas pessoas de volta.

Mas poderia escolher o que faria daquele momento em diante.

E talvez tenha sido aí que compreendeu:

não precisamos controlar toda a estrada para escolher a direção do próximo passo.

Talvez não sejamos totalmente livres.

Mas também não somos completamente determinados.

Somos influenciados pelo passado, pelas circunstâncias, pelos vínculos, pela sociedade e pela própria natureza.

Ainda assim, existe em nós uma capacidade de questionar.

E talvez questionar seja uma das primeiras manifestações da liberdade.

Quando perguntamos “por quê?”, deixamos de apenas obedecer.

Quando questionamos aquilo que aprendemos, abrimos espaço para pensar.

Quando percebemos nossos padrões, podemos decidir se queremos continuar repetindo-os.

Talvez ser livre seja menos fazer tudo aquilo que queremos e mais compreender por que queremos aquilo que queremos.

Porque uma vontade pode nascer do medo.

Uma escolha pode nascer da culpa.

Um desejo pode ter sido colocado em nós por outra pessoa.

Uma permanência pode ser apenas apego.

Uma desistência pode ser apenas insegurança.

Conhecer nossas motivações talvez seja uma forma mais profunda de liberdade do que simplesmente ter opções.

No fim, talvez nunca descubramos se nossa história possui páginas previamente escritas.

Talvez exista destino.

Talvez exista acaso.

Talvez exista uma combinação dos dois.

Mas existe algo que podemos fazer enquanto ainda estamos dentro dessa história:

participar conscientemente dela.

Podemos rever nossas escolhas.

Podemos abandonar caminhos que já não fazem sentido.

Podemos corrigir rumos.

Podemos reconhecer erros.

Podemos começar novamente.

Talvez não sejamos autores absolutos da nossa existência.

Mas também não somos apenas personagens obedecendo a um roteiro.

Somos, talvez, coautores da nossa própria história.

Não escolhemos o primeiro capítulo.

Não sabemos como será o último.

Mas existe uma página aberta diante de nós.

E essa página é o presente.

Talvez não possamos escolher todas as estradas que a vida coloca à nossa frente.

Mas podemos escolher com que consciência iremos percorrê-las.

Podemos seguir por medo ou por coragem.

Por obrigação ou por convicção.

Por hábito ou por consciência.

Por aquilo que esperam de nós ou por aquilo que descobrimos ser verdadeiro para nós.

E talvez a verdadeira liberdade esteja exatamente nesse pequeno espaço entre o que recebemos e o que decidimos fazer com aquilo.

Talvez o caminho não esteja completamente escrito.

Talvez algumas linhas tenham sido traçadas antes de nossa chegada, mas outras ainda esperem pela nossa escolha.

E talvez seja justamente nesse espaço entre destino e decisão que descobrimos quem realmente somos.