Entre Estórias, Histórias e Reflexões: Crônicas da Existência — 30

Quantas versões de mim ainda vivem dentro de mim?

Ilustração — Quantas versões de mim ainda vivem dentro de mim?

Já não me parece mais uma pergunta, mas um espelho que se aprofunda quanto mais tempo tenho coragem de encarar.

Porque não é apenas sobre quantas versões existem, mas sobre quantas ainda conduzem meus passos sem que eu perceba.

Há momentos em que ajo como alguém que já não sou, reagindo com medos antigos a situações que já não são as mesmas.

E então entendo: algumas versões não foram embora — apenas ficaram no comando em silêncio.

Existe em mim uma guardiã do passado, que tenta evitar que a dor se repita, mesmo que, para isso, eu precise abrir mão do que poderia ser novo.

Existe também uma sonhadora, que ainda acredita em possibilidades que minha parte mais cansada já desacreditou.

E, entre elas, há um conflito constante: segurança ou expansão? proteção ou verdade?

Mas começo a perceber algo mais sutil — não são apenas versões… são tempos convivendo dentro de mim.

O que fui ontem ainda respira hoje. O que temo amanhã já influencia minhas escolhas.

E, no meio disso tudo, existe um agora que muitas vezes passa despercebido.

Talvez por isso seja tão difícil se reconhecer: porque estou sempre me encontrando em meio a ecos do que já foi e projeções do que ainda não chegou.

E então surge uma nova camada de compreensão: não preciso eliminar versões. Preciso integrá-las.

A criança não precisa ser silenciada — ela precisa ser acolhida.

A parte ferida não precisa ser escondida — ela precisa ser compreendida.

A versão que teme não precisa ser rejeitada — ela precisa ser guiada.

Porque quanto mais eu nego o que existe em mim, mais fragmentada eu me torno.

E quanto mais eu escuto, mais algo se organiza.

Não em forma de perfeição — mas em forma de presença.

E talvez seja isso que começa a nascer quando paro de lutar contra mim mesma:

uma consciência que observa sem julgamento, que escolhe sem impulso, que permanece mesmo quando tudo em mim muda.

Talvez eu nunca deixe de ser muitas.

Mas posso deixar de ser dividida.

E nesse ponto quase invisível, quase intangível, algo se alinha.

Não porque todas as versões desapareceram, mas porque já não precisam disputar espaço.

Elas passam a coexistir sob algo maior, mais silencioso… uma presença que não precisa provar nada, nem se defender de nada.

E é ali, nesse lugar sem ruído, que começo a suspeitar:

talvez eu nunca tenha sido as versões… apenas aquela que, em silêncio, sempre esteve consciente de todas elas.